Esquecimento

Eu corro, corro, corro, mas sinto por dentro que não dei um passo sequer. A vida é um looping infinito e azar daquele que não consegue escapar disso nunca. Eu ainda estou presa neste limbo, eu sei. Eu esqueço de coisas importantes, datas importantes, pessoas importantes… mas mesmo assim eu corro e não paro. Eu nunca paro. Neste processo de esquecimento tenho encontrado dificuldade até para lembrar de mim mesma, de quem eu sou, do que eu gosto, do que eu quero ser. E isso, meu amigo, eu não posso esquecer nunca. NUNCA MESMO.

Reviravolta

Sabe quando a vida vira de pernas para o ar? Tenho passado por isso nos últimos meses, mas quer saber de uma coisa? Tem sido ótimo. Levou um pé na bunda? Vá em frente. Trocou de emprego? Faça por merecer. Dormiu 1h de um dia para o outro? É por um objetivo maior. Eu assumi meu risco e estou aí, firme e forte. Tudo isso pode durar 10 dias ou 10 anos, não importa, é questão de atitude. Já valeu a pena.

Nada convencional

Engraçado quando você quebra seus próprios padrões e causa estranheza a si mesmo. Hoje foi um dia assim. Sinto tudo meio desconectado, longe, como se eu fosse mera coadjuvante da minha vida. E isso não é ruim, acreditem.

Sempre acostumada à ansiedade e ao estresse, constato agora - às 23h15 desta segunda-feira - que não detectei um tiquinho de sentimento que chegue perto desse turbilhão catastrófico de emoções.

Tudo isso pode não fazer sentido algum amanhã, mas achei importante escrever para concretizar que senti. Uma espécie de atestado da realidade para que eu me lembre na marra das coisas importantes que esqueço.

Esperto é aquele que cultiva os bons pensamentos, como os que tenho agora. Minha horta tá mirradinha, coitada, mas um dia viro esperta de verdade.

Falta de inteligência

Já fui muito mais intolerante do que hoje com a burrice. Não que eu me considere o auge da astúcia, mas por ter recebido uma educação de base sólida (até certo ponto), involuntariamente penso ter alguma vantagem. Mas não, não é disso que falo. Tenho tentado compreender as razões que contribuem para o surgimento das lacunas de conhecimento e das dificuldades intelectuais das pessoas - por mais que isso seja um desafio dos grandes para mim (paciência nunca foi nem nunca será o meu forte). Agora uma coisa que ainda não me desce é gente que se recusa a aprender. Ninguém é obrigado a nascer sabendo, então quando o outro tem a boa vontade de estender a mão, aceite. Não há nada mais feio e ignorante do que refutar o aprendizado. Em dias como hoje a expressão “parece burro quando empaca” faz todo o sentido.

Tradição familiar suspensa

Sei que para as pessoas “normais” fica um pouco difícil compreender toda essa devoção que tenho por Harry Potter. Acontece que isso não veio do nada, não é simplesmente por causa dos livros, filmes e atores… para mim, vai muito além.

Desde os meus 15 anos tenho uma espécie de pacto com a minha mãe. Não importa o que acontecesse, nós sempre assistiríamos juntas aos filmes da saga no cinema. E foi isso o que aconteceu conosco nos últimos 10 anos. Sete filmes, nenhum furo. Muitos momentos de risadas, choros, comentários apaixonados e tudo aquilo o que um fillme que empolga a gente proporciona nos instantes seguintes ao da saída da sala de cinema.

Ontem foi a última vez que fizemos esse itinerário, chegou a hora do oitavo (e último) longa-metragem da série Harry Potter. Eu queria que a noite fosse perfeita, mas óbvio que não foi. Para começar, aquela fila astronômica para comprar os ingressos. Olha, os pãos duros que me perdoem, mas para mim deveriam acabar com esse treco de meia entrada às quartas-feiras. São 6 reais a menos, mas o efeito é estrondoso: tudo abarrotado. Infelizmente era o único dia que tínhamos para fazer o programa-tradição e tivemos que nos submeter. Depois, claro, aquelas máquinas de auto-atendimento pra lá de podres, que toda hora ficavam sem sinal e obrigavam os clientes a iniciarem o procedimento do zero.

Após toda a confusão, conseguimos as entradas e fomos jantar. Eu chorei as pitangas da minha vida, elas as da dela. É realmente bom desabafar, mesmo que as coisas não mudem de verdade, pelo simples fato de falar. Papo vai, papo vem e nem reparamos que o horário já estava apertado para “Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 2”. O tempo voa em situações assim.

Subimos as escadas rolantes, entramos no cinema, assistimos ao filme e as luzes se acenderam. Fim. Olhei para o lado e a minha mãe chorava… Ainda sem entender, esperei ela enxugar as lágrimas e me dizer: “Acabou”. Aí eu finalmente entendi. Não era só a saga que acabava, eram aqueles momentos entre mãe e filha que também estavam fadados a não mais acontecerem.

A gente se levantou e, mesmo no meio daquela muvuca toda, dona Miriam pegou no meu braço, entrelaçou-o ao dela, e fomos assim até o carro. Ela me abraçou e disse toda tristonha sobre o pesar de ver o fim da saga bruxa. Sim, alguém me entendia, a minha mãe me entendia.

“Mas não tem problema não, Amanda. A gente inventa outro motivo para continuarmos a nossa tradição. Falaram que ainda vão sair alguns filmes dos vampiros. Quem sabe, não?”, ela disse toda humorada, sabendo que eu não aprovaria a ideia da saga Crepúsculo. Eu dei risada e fomos embora.

Sim, a gente vai arrumar outro motivo. E o dia que começou avesso, torto, imperfeito, acabou sendo melhor do que eu imaginava.

Decisões

Se tem uma coisa com a qual ainda não aprendi a lidar atende pelo nome de verbo “escolher”. E vejam bem, não falo aqui de grandes decisões capazes de mudar a vida de alguém (a minha, principalmente). A doença é irreversível e já se espalhou por todos os órgãos, está presente em absolutamente tudo, até nas mais insignificantes passagens do meu dia a dia.

Quantas vezes comprei uma blusa de modelo igual, mas com cores diferentes? Nossa, muitas, até perdi as contas. Não é segredo para ninguém. Eu sempre quero tudo, o melhor e o pior, assim, junto e misturado, se possível no mesmo pacote de facilidades. 

Lembro dos tempos de criança… das birras, dos castigos e até das brigas que eu tinha com minha mãe por querer isso e aquilo também. Mas, agora, percebo que não posso ter tudo. Pior, isso não me satisfaz mais, não me deixa feliz. Ridículo precisar de 25 anos para se dar conta disso, né?

E nessa loucura que é a minha rotina, sigo empurrando a bola de neve que criei montanha abaixo. Até, quem sabe, o dia em que ela virará uma avalanche que destruirá tudo de uma vez por todas. E que não reste nada, por favor.

Começar do zero, sem vícios, parece uma oferta muito mais fácil e tentadora do que tentar consertar o carro que já deu perda total.

(Falta) foco

Na eterna luta diária do que somos e do que gostaríamos de ser sucumbo frente à minha total incapacidade de ter foco na vida. Em todos os campos. Em qualquer tipo de situação. Em todos os momentos do dia. É uma espécie de DDA crônico que me impede de escolher uma única via e seguir adiante. E, assim, eu me desdobro em dez, vinte, centenas de Amandas, quando na verdade não consigo dar conta de uma sequer. E vou um pouquinho aqui, um pouquinho acolá, um pouquinho ali. Pouquinho, pouquinho, pouquinho. Sempre falta algo. E nunca me pareceu tão mentiroso aquele ditado de que “de grão em grão a galinha enche o papo”. Seria bom conseguir o tal do “poucão”… uma vez na vida que fosse.

Frio

O que mais me incomoda não é o frio que vem de fora, aquele que a gente sente na pele e nos faz arrepiar. Isso é esperado, os dias de outono sempre foram e sempre serão assim. É como se tudo fosse uma preparação para o inverno que não tardará a chegar. Agora, aquele frio, o outro, que vem de dentro, esse sim me perturba. Quando você se protege da brisa congelante em um lugar bem fundo e obscuro, lá longe mesmo, sentir frio é tudo o que resta. É verdade que você não treme mais quando o vento impiedoso chega com força, mas você também não sente mais nada. Ao enxergar as coisas por este cruel e verdadeiro prisma, percebo que sentir frio não é tão ruim assim. Não mesmo.

Insistir

Insisto em não dormir (e quando o faço não é de maneira adequada). Insisto em acumular mais tarefas do que posso dar conta. Insisto em dar atenção para coisas que não trazem retorno algum. E insisto em um monte de outras idiotices que não fazem o menor sentido. Às vezes penso que gosto de sofrer. Aquela coisa bem sado mesmo. Verdade seja dita, funciono no piloto automático. Quando me dou conta do óbvio, já foi. E é nesse ciclo sem fim que espero um dia, quem sabe, aprender a não insistir mais.

Filtro na vida

Receber uma crítica nunca é tarefa fácil para quem está do lado fraco da corda. Há muitas maneiras de encarar isso, mas todos concordam que não é missão tranquila e, tampouco, prazerosa. Devo admitir que não sei ao certo como agir em situações assim. Se você retruca, parece tão teimoso quanto uma porta; se aceita sem traumas, parece submisso que não sabe defender o seu ponto de vista; se consegue achar um meio termo, dizem que você está fazendo tipo e tudo entra por um ouvido e sai por outro. Qual é, então?

Mas eu não comecei este texto para chorar as pitangas. Nunca foi nem nunca será gostosinho aceitar uma crítica. Mas aí vem o “X” da questão, o que dizer do lado forte da corda? Sabe, os tais “críticos” que chovem aos montes por aí… Quem nunca ouviu as frases “só estou falando porque você é meu amigo”, “posso fazer uma crítica construtiva?” ou, ainda, a tão famosa desculpinha “olha, não é pessoal”?

A verdade, amigo, é que é pessoal, sim. Se você está me espinafrando, não importa em qual âmbito (profissional, psicológico, familiar ou whatever), como dizer que não é pessoal? Sempre é. Essas frases só servem para aliviar a culpa do crítico quando chega a hora de destilar o veneno. É um artifício injusto que faz com que ele se sinta mais leve quando coloca o já pesado fardo da “chibatada” nas costas de alguém.

Mas vamos além, não me contento com pouco. Os críticos fazem melhor do que a gente? Porque se realmente dizem o que dizem com propriedade, é hora de abaixar a orelhinha e escutar no miudinho. Agora o que pensar daquele que sabe muito bem atirar a pedra, mas não tem coragem de dar a cara à tapa? Assim é fácil, muito fácil.

Aprenda a filtrar as bobagens que você escuta diariamente. Quando começar a “sacar” o que estou falando, você também perceberá que muitas vezes aquela crítica nem é para você. Encare como um mecanismo de autodefesa do próprio “lado forte da corda”. A insegurança tem muitas facetas, cabe a nós identificá-las (nos outros e na gente) para que não soframos além do necessário - sem nunca esquecer que todos nós temos um pouco dos dois lados da moeda.