Sei que para as pessoas “normais” fica um pouco difícil compreender toda essa devoção que tenho por Harry Potter. Acontece que isso não veio do nada, não é simplesmente por causa dos livros, filmes e atores… para mim, vai muito além.
Desde os meus 15 anos tenho uma espécie de pacto com a minha mãe. Não importa o que acontecesse, nós sempre assistiríamos juntas aos filmes da saga no cinema. E foi isso o que aconteceu conosco nos últimos 10 anos. Sete filmes, nenhum furo. Muitos momentos de risadas, choros, comentários apaixonados e tudo aquilo o que um fillme que empolga a gente proporciona nos instantes seguintes ao da saída da sala de cinema.
Ontem foi a última vez que fizemos esse itinerário, chegou a hora do oitavo (e último) longa-metragem da série Harry Potter. Eu queria que a noite fosse perfeita, mas óbvio que não foi. Para começar, aquela fila astronômica para comprar os ingressos. Olha, os pãos duros que me perdoem, mas para mim deveriam acabar com esse treco de meia entrada às quartas-feiras. São 6 reais a menos, mas o efeito é estrondoso: tudo abarrotado. Infelizmente era o único dia que tínhamos para fazer o programa-tradição e tivemos que nos submeter. Depois, claro, aquelas máquinas de auto-atendimento pra lá de podres, que toda hora ficavam sem sinal e obrigavam os clientes a iniciarem o procedimento do zero.
Após toda a confusão, conseguimos as entradas e fomos jantar. Eu chorei as pitangas da minha vida, elas as da dela. É realmente bom desabafar, mesmo que as coisas não mudem de verdade, pelo simples fato de falar. Papo vai, papo vem e nem reparamos que o horário já estava apertado para “Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 2”. O tempo voa em situações assim.
Subimos as escadas rolantes, entramos no cinema, assistimos ao filme e as luzes se acenderam. Fim. Olhei para o lado e a minha mãe chorava… Ainda sem entender, esperei ela enxugar as lágrimas e me dizer: “Acabou”. Aí eu finalmente entendi. Não era só a saga que acabava, eram aqueles momentos entre mãe e filha que também estavam fadados a não mais acontecerem.
A gente se levantou e, mesmo no meio daquela muvuca toda, dona Miriam pegou no meu braço, entrelaçou-o ao dela, e fomos assim até o carro. Ela me abraçou e disse toda tristonha sobre o pesar de ver o fim da saga bruxa. Sim, alguém me entendia, a minha mãe me entendia.
“Mas não tem problema não, Amanda. A gente inventa outro motivo para continuarmos a nossa tradição. Falaram que ainda vão sair alguns filmes dos vampiros. Quem sabe, não?”, ela disse toda humorada, sabendo que eu não aprovaria a ideia da saga Crepúsculo. Eu dei risada e fomos embora.
Sim, a gente vai arrumar outro motivo. E o dia que começou avesso, torto, imperfeito, acabou sendo melhor do que eu imaginava.